stigmas - pseudo poesia  

livro virtual


 
a árvore se dobra
abaixo
com sua copa nova
de fogo e fato!

e ninhos onde amadurecem os filhos finais

nas esquinas nos pastos nos jornais!

o ultimo estrondo se anuncia
na boca dos animais dizimados por conforto.

é o esperado levante da onda.

se anuncia.

um rinoceronte corre o arrojo de morte nos passos tonelados de ímpeto agressivo.

uma ave plana sobre o torço
músculo.

o ideal indignação erguido contra o muro de furos e contratos...

e a arte om suas esponjas.

descascar os esmaltes
de cada agressão

deflagrar as capsulas
na queda

os sonhos,
no vôo nú.

glaucus noia
06de fevereiro, 2008
espelho - BA

  posted by GLAUCUS NOIA @ 14:45


Quinta-feira, Fevereiro 07, 2008  

 
das recôncavas aquosas listras
desmedidas de adeuses,
se debruçam a passagem de mais um dos teus ardores.

do vidro e da areia.
os grãos sem mais nem menos.
se perdem
dês
pencam.


do lacrimar sonâmbulo veloz e duro
do alaranjado lilás do que se põe
em fogo.


não há pistas para o outro,
nem para dentro,

os sinais se anunciam e se logo perdem
sem destino,

sem moral.




apenas vazios de asilos verdenhos,

água de peixe e sal.



é fim de ano outra vez.



31de dezembro, 2006
Praia do Espelho - BA




no silêncio
calo o que conheço, no avesso do que não ouço ao certo.

silencio, em palavras.

entre uma realidade e outra,
resto eu ao som dos ventos
à pesca de um momento

para minha poesia.



31de dezembro, 2006.

(À margem da corredeira de sons – Glaucus Noia)


  posted by GLAUCUS NOIA @ 13:09


Segunda-feira, Dezembro 10, 2007  

 
Canção de um anima em cada peito aberto;
numa noite.


o seio dela
é um animal que respira
vida frágil em seu outono pardo
de semi-tons de pele exposta

o seio dela
no abandono do quarto outono,
move-se sutil fora do contexto
migra contra a corporalidade suspensa no cinza das quatro paredes iniciais do dia.

é um animal que respira
seu sono lírico
na ausência de sons e de presas.

_a vigília sem olhos!

existe e insiste, alheia a ela
à mulher, a mesma novamente
a quem tempos a trás , cantei nua,
presa na redoma de véus.

sustentadora de toda uma matilha
adormecida na pele
além da pele

no corpo
além do corpo
.

sobre as dunas rasas dos lençóis brancos,

o seio dela é de um arfar constante,
animal guardado,
por hoje, abriga meu animal que vaga livre,
que existe.

14de fevereiro, 2007
Outeiro - Bahia
Para a menina das libélulas.



a cada retomada
o sonho cresce de uma quebra
assustada.

e me racha os olhos
que buscam através da luz azul, e do sobressalto.
há um incrível abrir de pétalas à arte que me faço homem.

e em cada jardim cobram-me o esforço de ser outro.

a pena é que estejam sempre em busca do outro, ausente,
e percam o presente, que talvez, salve o amanhã
pelos dias, e de resto, tenho saudades do mar
e sinto que quando fecho os olhos

nas cortinas , haja mar, onde corais se estendam sobre as águas
como cabelos morenos que odeiam em sono.
sob os ventos do sonho.
na tempestade das noites a que restam esquecidos,
os corpos de todos outros, inúteis, sem sombra.

concepção:
01de agosto, 2003
06de julho, 2006




  posted by GLAUCUS NOIA @ 22:07


Quarta-feira, Novembro 28, 2007  

 
estamos sempre em busca da retomada de um sentimento desentranhado sem aviso.
como um sonho esquecido,
um sonho antigo repetido esquecido.

como um aroma da infancia retornado...

nesse sonho, sempre alguma dor...

toda dor embasada por um grande medo;
todo medo embasado por uma grande dor.

sempre em busca de alguma dor
que outrora sentimos, mas com a qual não soubemos,
no sobressalto, como lidar. e agora vamos, errantes
em busca da revanche, do exato momento
em que se apresente a oportunidade de demonstrar a Evolução.

e só por isso evoluímos;
para testar as próprias certezas.
os próprios limites.

mas eis que no tempo transcorrido, também o grande Dragão
das labaredas nossas de cada vida se transformou, e a dor
já não é mais aquela esperada, senão outra, ainda mais aterradora,
qinda que sempre a mesma; o presente.

e a única sabedoria existente para lidar com o derradeiro encontro,
saber aceitar o inusitado ausentes as expectativas.

ou ir em busca contínua racional, ao encontro de sempre
outro trauma a superar.

e tombar sob o batente da porta ultima.

10.10.07



toda insaanidade infantil
à espera dos dias melhores.

as pipas nos céus.
os pés no chão.

a cor do mar
e ver a noite deitar
um véu de estrelas
sobre tudo.

longe dos dentes das cidades.

10.10.07

  posted by GLAUCUS NOIA @ 22:35


Domingo, Novembro 25, 2007  

 
..

  posted by GLAUCUS NOIA @ 16:27


Quinta-feira, Outubro 11, 2007  

 
.

  posted by GLAUCUS NOIA @ 19:36


Sexta-feira, Abril 20, 2007  

 
o céu de pálpebra cinza
hoje quer descansar.
nas arestas de um cílio luminoso

desce uma pegada de aves, uma revoada
e meus olhos tombam um desassossego gentil.
embala-me num sem som antigo, abrigo.

não chove,
não choras.

e é marina que se esquece sob as árvores
da praça sua textura e meu abraço.
guardada do lacre mais eficiente,
nascida para um só gesto
seu segredo de pedras.

Não move
Não mora.

Bem Marina, te cala assim,
E me carrega em teu seio duro,
Mais que eu em mim.

25de agosto, 2006
São Paulo - SP


  posted by GLAUCUS NOIA @ 23:20


Sexta-feira, Agosto 25, 2006  

 
olho tranquilidade de recém pomba pink vivencia

O demoníaco em todo canto
Com aquele olhar de pomba,
De meia pupila pink serena
De tranqüilidade ameaçadora por si só.
Em cada olho um espião
Para o outro lado, que vigia,
Que controla, na via
De duas mãos.

Me olha , por seu SER maior a que não há atos,
E me vivencia no fundo do que se estende em mim
por mim
de mim
para mim
fora do cosmos.

Aquela ferida que se abre,
Qual uma gota de luz que se forma,
na quina que se desvenda lento,
como só o pássaro recém nascido
pode sustentar uma pálpebra,
sem saber que é o primeiro ato de liberdade,
o princípio de seu dom maior de vôo.

Brilha, em cada átomo de mim
de cada cousa
há mais tempo
que existe a noção de tempo.

E seu brilhar é um mover de losangos vivos
Na cor do sumo do que sangra.
Se desdobrando e espelhando, o fecha e abre
De geometrias sublimes e símbolos combinados
Com a harmonia divina, que inspira a estética,
Mas nega seus princípios.

Reverencio, pois Tudo é respeito e devoção mútua
Em desequilíbrio para evolução em ti,
Ó entidade ancestral.

07de agosto, 2006-08-07
SP SP.



  posted by GLAUCUS NOIA @ 23:52


Sábado, Agosto 12, 2006  

 

Dança em minhas costas o tombar das flores,
Com o vento que convida a voar

Tem a mim estirado o0 elo reformador
De cinco termos alinhadores do final.

O que me pede ou doa nessa imensidão miúda que cada gesto impõe?

Apenas saboreia o vermelho de cada fruta da bacia e me sorri asas de pedra
Sob os véus róseos que convidam, só convidam, e é
Aleatoriamente, o aceitar seu convite.
Não vôo, mas sei que dentro de cada pétala, se abrem mil hemisférios livres
Dispostos de cada possibilidade para nosso encontro.
Esse verde se recolhe e me acaricia leve. Os vento retomam seu rumo e nos deixam à paz e às tormentas de nosso jardim.

04.08.06
São Paulo SP casa dos pais.



  posted by GLAUCUS NOIA @ 23:51



 
Rolam os dados
Pelos telhados e lajes,
Pelo tempo que segue
Dobram-se as cabeças
Pesadas de imagens
Geradas pelos sentidos,
O teatro.
Guardados sob a passagem
Tecem em paz sua nova morada,
Onde não atacam nem são atacados
Pelo movente que cessou.
Seguro, o novo templo
Segue as regras do ambiente
Ignorando as paredes
e não produz sombra alguma,
não executa o dom das copas,
para com as árvores,
nos campos de passeio.
É fim de tarde e cantam os pássaros
A elegia invocativa da grande sombra
Que se deita e garante o réquiem
Bético, para novas buscas.

04.08.06
São Paulo SP casa dos pais.



  posted by GLAUCUS NOIA @ 23:51



 
No amor perdemos o laço
E nos deixamos cair do fio
Que nos prende ao céu.

A estrela se iguala à pedra,
Sem órbita e com peso.

07de agosto.2006
São Paulo ¿ SP
Casa dos pais.


  posted by GLAUCUS NOIA @ 23:48



 
Já te vivenciava o chamado por mim
Antes do teu ovo ficar pronto.
Já ecoava em mim profundo, teu canto
De dentro do broto.

07de agosto, 2006.
SP SP


  posted by GLAUCUS NOIA @ 23:48



 
Para a morada de todos que morrem
E nos são queridos,

Coloquemos no fogo nossa mão completa,
De todas as virtudes onde o ego não alcança.

E o passo solene de homenagem sela
Na areia ou no asfalto,
Na Grama ou na terra, o pacto harmônico.

Nossa boca igualada às rochas.

As costas fundas na gruta solitária.
Palco de vôo.

A mente é o rio de trás. Pula o portão,
Depois do bosque de mangas.

Nosso sexo, nos corais,
Exposto à visão frontal
Dos céus, onde bailam Urubus e gaviões.

Numa época tão doce e tão corrosiva.
As drogas, químicas, minerais ou nervosas (no encontro),
Tecem seu estranho mosaico,
Nas axilas de metal.

O calango intercede.
A pedra medita por vós.

Um verão de união na diversidade.
Arte Vida forte e Trabalho!

Recebe Mineiro, recebe Tuíca,
A reverência desses amigos
para o instante que nada promete
e tem mais a dar de amor
e tranqüila confiança, de que necessitavas, tu,
e ainda, tanto, necessitamos nós.

Salve! Salve!

07de agosto, 2006-08-07
São Paulo ¿ SP.

Para Mineirinho, Tuíca e Marcelo...

Salve! Para a Luz onde é possível se enxergar!

A pólvora só pode ferir o que não dura.



  posted by GLAUCUS NOIA @ 23:46



 
também as pedras são livres

as pedras repletas de silêncio,
expostas à saudade.
ausentes ao movimento,
alheias ao pensar.

também as pedras são livres
e cada mão, e cada pedra...
as folhas em branco são puras,
as pedras são eternas...

e pesam as sombras e sua fria solidão

Glaucus Noia
13de março 2003
São Paulo - SP



  posted by GLAUCUS NOIA @ 21:18


Domingo, Maio 21, 2006  

 
"Esculpida em qualquer matéria sem amor
Peso olhos estáticos na face fria sem cor
Apenas mantém sua desde sempre velha expressão azul
Sofre sem lágrimas a cada alegria que é capaz de causar...

A criança, não, não vê....
Se visse, também triste seria..."




(o original deste poema está escrito sobre a foto de uma boneca antiga, largada num canto de parede. fixando o olhar no nada. acima uma representação.)


  posted by GLAUCUS NOIA @ 08:07


Quarta-feira, Maio 17, 2006  

 
VOLúPIa ínterim

o baixar de um passo
ao cair de um toque do piano.
por dentro do movente corpo...

num gotejar de golpes rasos
por um sentir mais pleno
no âmago desse ausente.

o arranhar afinado
estende-se diagonal,
flerte com o mar e o Standard.

por um momento sem palavras,
-de enganos basta o ter corpo-
é como o vento; só som e movimento.

o violino plana a aura desse instante
é o fluido em nuvem para o piano
pontuado no gotejar miúdo.

a Bailarina se esconde!
nega o passo com o olhar que se fixa
onde a dança realmente acontece, além.

Entre o que precede a ultima leveza
Insta o traço, e perde fácil o rastro
No simbolismo do que o artista desfez.

A geometria, de um pecado íngreme!
Exatidão incontestável que em cores
Nega a forma e comunica o pós.

A mente, e a mão
No encontro da técnica com a inspiração
Tinta,.. suporte,.. música para o corpos em ação.

11de março, 2006
São Paulo ¿ SP
Sobre coreografia de Juiana Rinaldi para Performance Volpi.




  posted by GLAUCUS NOIA @ 12:30


Sábado, Março 11, 2006  

 
Quando uma gota

se desprende duma folha,,,
se forma numa nuvem,,,
se enche num olhar,,,
e se agarra a uma queda
com a força de um destino inevitável,

o Todo se prostra e concede seu amém.

O aval a qualquer fim natural.

22de fevereiro, 2006.
São Paulo - SP


  posted by GLAUCUS NOIA @ 18:31


Quarta-feira, Março 08, 2006  

 
Carrega no teu peito tua pedra inflamada e não atires de volta ao céu de vidros frágeis.
Sustenta tua dor e teu amor ao que é verdade..,

se a dúvida racha o céu,,,
Se ele desaba,

Tua armação desanda,
Teu coro cede,
Tuas costas cheias
Não suportam a chibatada.

Repassa teu infinito no abraço,
Pela justiça da Causa.

Faz do mundo teu altar raso.

11.11.05
Minas, migrando.


  posted by GLAUCUS NOIA @ 18:31



 
O momento imóvel
De chuvas e mínimas notas
Em que se perdem
Os pianos e as cordas...

E as mãos enlaçadas permanecem,
Já não se sabem
Por uma ou outra, no encontro.

Terra que guarda o futuro fruto;
Vidas a semear.
Calma de canto de pássaros
além das telhas, das gotas

e um rosto esquecido de sonos
sem vínculo com o mar ou com ventos
desliza no neutro os cílios longos
das pálpebras restantes do balé
a que se rende aos dias de corpo.

Janeiro 2006


  posted by GLAUCUS NOIA @ 18:30



 
o mendigo comia e olhava
como se tivesse olhos...
(mas olhos são para pessoas)

o mendigo olhava e comia
como se pudesse matar a fome que tinha...
(mas cultura custa caro.
custa tempo e dinheiro.)

2005


  posted by GLAUCUS NOIA @ 20:34


Terça-feira, Novembro 15, 2005  

 
Queria entrar como a pantera,
Escuridão ante escuridão no passo,
Por detrás das grades,
Na vida que espera apenas por
Um certo homem, que seja menos
Macho e cheio de reticências,
Hermínia para algumas mulheres
que o aprendam a amar, mas que
espera ¿e espero- pelo lobo, pela
coragem, pela ordem final, pelo sopro.


21de setembro, 2005
Outeiro das Brisas ¿ BA


  posted by GLAUCUS NOIA @ 23:44


Quarta-feira, Setembro 21, 2005  

 
Venta tanto do mar.

E eu não tenho saudade alguma...

Só essa falta dentro.
Isso ausente.

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Eu choro lá,
dentro da onda...

meu vazio e seu todo
ligados pelo meu olhar.

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Gris reflexo no mar
Que cubro de palavras
quase desligadas..,

Cada vez
que isso me toma de ausente,
dentro de mim,
do mar.

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No movimento do mar,
Tudo parado.

Move suas alegrias e suas tristezas
Num ritmo mais sábio, de quem
Sofre de azuis há eras!

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A manhã pelo fim
é o fim do dia
até que venham, tarde e noite,
assumir a máscara de Átropos.

Quem sabe se elas vêm?

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Nada se move se não pelos ventos
pelo mar.

O vento move o ar
no espaço

mas de quem é o sopro?

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O cinza mais antigo,
A mesma aflição
Na mesma praia
De três anos atrás.

E o mesmo barco balança
Na água, sua calma.
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Enquanto tudo se perde,
dentro de mim,
do mar.

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O chiado das folhas,
O vento no litoral,
O silêncio no balanço dos barcos
Ao longe.

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O modo como o barco se detém
diante das ondas que passam,
parece uma encenação azul do destino.

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Meus olhos encontram as ondas
na distancia.
na distancia,
elas perdem meus ouvidos.

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E enquanto tudo se perde
dentro de mim,
os pássaros enormes planam.

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Esse vento sopra forte
para garantir o movimento
das coisas,
do mundo.

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O litoral se abre
Sem ninguém sair.
A onda se dobra,
Pra ninguém usar.

Tudo está só e comigo.

Os ventos seguem soprando
Sem velas
Sem eu partir,
Sem eu chegar.

Os olhos procuram por léguas
E tempos sem encontrar.

Meu corpo se estende
até as pontas dos dedos,
sem ninguém tocar.

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tudo está só e em mim.

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(Desejo submerso)

Morar estar,
A esses dias cinza de inverno no espelho,
No fundo do mar,

Onde o vento
não toca,

Onde as vozes
não chegam.

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manhã do dia
18de setembro, 2oo5
Espelho - BA



  posted by GLAUCUS NOIA @ 22:56


Segunda-feira, Setembro 19, 2005  

 
Andando sob a chuva, as pernas se jogando para a frente, sempre, um movimento contínuo rumando o desconhecido e deixando na areia fina do Espelho, seu rastro corajoso... o moletom preto, curto, cortado, sem gola, sem as pontas das mangas, sem barra, manchado de tintas, pincelado de cores da tinta já usada e descartado o excesso no tecido, calças curtas e a serenidade na face molhada. Nos lábios, a canção: ´´fez-se mar.., sinhá o meu penar, demora não.., demora não...´´ observou um pássaro que gritou de passagem. As ondas quebravam com seus trovões, - escreveu mentalmente-

a espuma, que sem estado,
alça da nuca da quebra da onda,
o vôo e vem, areia acima,
desenrolando seus véus...
lamentando a tentativa de me alcançar
pelas penas dos ventos...

meu passo persiste ao grito, a curva, à chuva...
contínua a chuva à beira do mar,
a céu aberto, me cobre,
assim por quanto une o céu ao chão
e tudo de mais sublime do natural
faz união...

o mar une todas as terras mais distantes,
todos os povos, e se não,
têm o vento, o ar em movimento.
A terra nos une ao centro.

É só corpo que nos separa,
E é pouco, físico...
Nos somos todos!
E a Deus nos pomos,
E a todo deus, Deuses somos.

Que não domine à mente,
A consciência do concreto e do ´´real´´,
Mas que resista ao que há tempo,
A transcendência, a este caminho,
Breve aprendizado a que se existe.


23de agosto, 2005
Outeiro das Brisas - Espelho - BA

  posted by GLAUCUS NOIA @ 18:56


Terça-feira, Agosto 23, 2005  

 
temporada de caça

o tempo se adianta, se precipita em ser cruel.
o espaço leva o tempo, o estende na distancia..,
do alto.., do largo...
não demora meu envelhecer e seu depois inevitável.
passa-se anos numa semana
só para rasgar meus sentimentos nesse ardor.


8de outubro, 2004
São Paulo - SP

  posted by GLAUCUS NOIA @ 09:26


Sábado, Agosto 13, 2005  

 
O sol caía sobre o horizonte de madeiras, de placas, de telhas velhas, a passagem de algo sutil num gesto próximo, alheio ao mundo subordinado das coisas; das vozes aos carros, de sons de passos; no caminhar adiado dos pés descalços do homem envolto em sacos plásticos, ou dos saltos femininos das mulheres adventistas enfiadas em seus vestidos azuis ou saias.
Ele sentia a vida interrompendo a voz, gargarejando aquele desconforto, a dor que Há de plano de fundo, um sofrimento que só espera sua vez.., à espreita... O som agudo se estreitando em seu pescoço. Água que sobe no copo que se enche e grita aquele aviso, de limite.., a tentativa do pedido por socorro afogado.
no corpo que se enche de marcas pela vida.
na vida que vazia, se busca, em si, ao redor... nas coisas, alheias ao sol poente, que não são ele, que gosta das coisas, que não são ele, que gosta, que não são.

´´gosto das coisas porque sendo coisas
não são o que sou.
conhecendo-as, me desconheço e posso
ser mais eu...

...gosto das árvores porque não sei apenas esperar pelas chuvas e estações.
gosto das folhas porque não sou folha.
gosto das pêras porque sob relógios, também perco-me no fulgor de estar pronto para nada também (não uso relógio, mas não sou pêra.)
gosto do galo porque cantando é sem morte.
gosto da canção porque a trago dentro de mim dizendo coisas que ainda não sei.
gosto dos ventos porque não tenho o talento de tatear com ausências,
contornar com um sopro...
gosto do mar porque meu peito não se estende,
porque minha voz não inspira,
porque não alcanço o horizonte com meus braços...
das poças, porque recolhem as gotas que não bebi.
das flores porque expressam a beleza simples em imagem.
das borboletas porque se equilibram no vôo refletindo o belo (e o bizarro) de cada extremo.
dos livros porque inanimados, dizem muito mais que eu que corro.
do luar porque nem me lembro de existir diante dele.
do céu, porque conhece as coisas, todas, de infinito a infinito.
gosto dos sinos porque Neruda me ensinou antes de sair.
gosto das lágrimas porque nunca caí com tanta dignidade.
gosto das folhas em branco porque não sou suscetível a todas possibilidades.
gosto do nu porque não me sinto nu.
gosto do tempo porque escreve obras completas
porque não há quem melhor console...
gosto de amor porque é completo.
gosto da vida, porque sei que nos engana, mas não sei o que é a vida.
gosto das pedras porque são o que não sou,
porque têm o que nunca terei.

Gosto de coisas porque é tudo, e fora de mim.´´


  posted by GLAUCUS NOIA @ 09:23



 
Sob o cinza ofegante, arfando o som dos carros, pulsando em tantos passos, ela despertou olhos ausentes. Indiferentes. Olhou o quarto que era mundo e menos, sujo de cores. Quase não sorriu sem mostrar os dentes. Não, não havia contentamentos, alegria ou calma.., Paz? Humm, não. Ausência mesmo.
Sabe o que é ausência? Essa ausência grande e fora da palavra que a traduz mediocremente? É o abandono... do que for. A fuga perfeita, tangível somente a níveis ínfimos de consciência. sub-níveis de ¿consciência¿, a consciência plena, o não consciente do corpo. O não pensar. O Não.
Mas ela não precisou pensar tanto em tantas coisas com tantos nomes. Ceci apenas abriu os olhos e viu. Viu o mundo que se fechava em sons e cheiros em redor dela, aspirando roncos, inspirando buzinas, pirando vozes, risos, movimentos simulados, cotidianos vendidos, casamentos fingidos e rostos, rostos, muitos rostos. Rostos contentes, rostos tristes, expressões perdidas. Olhos de boneca! Em todo canto, vivendo vidas de penteadeira. Sobre as roupas em redor dos corpos devidamente escondidos no jogo de esconde esperando que alguém ache, e bata o devido um, dois, três.
Desejos, uns reprimidos, outros não... desejos e corpos bem ou mal fodidos. E ao fim, Era sexo!
Sexo... Sempre que pensava essa palavra, ecoava-a na mente tentando-a manter no nível do real, porque não a pronunciava, nunca. -nunca!- Mas era preciso que ela não sumisse na ausência de fala, nesse silêncio... era preciso conservar até os inimigos. Não soube de onde viera isso, mas soou bem, em algum lugar dentro dela tempos a tras, (dias, semanas, meses.. tempos). E seu pai era um homem bom.


À tarde foi ao bosque colher flores, ler, e dançar. Girar cheirando livros e vendo esvoaçarem as folhas a um metro de si, ao fim do braço. Como asas que voassem um só lugar e piasse letras que já conhecia de suas histórias e seus sonhos...
Num dos giros, as asas se descontrolaram e voaram, ela esperava há tanto tempo por isso, ver livros voando e semeando algo, algo menos obvio, utópico, menos batido que educação, esperança... Mas não durou muito seu estar instável de vôo pardo, ele pousou logo e só trouxe nas asas o fim, de algo além de seu vôo curto.
Ela sabia! Sabia! Sempre soube que quando acontece finalmente algo por que se esperou demais, o impacto disso quebra espectatívas. Seja para mais ou para menos, sempre há o sobresalto do impacto...
Ergueu, com as pontas de indicador e polegar, como se por uma pena apenas das páginas-asas, o livro-pássaro que lhe parecia ainda ofegante, imóvel qual os pássarinhos que vira e mexe batiam nos vidros do hospital. Abaixo, ali, estirada sob a capa aberta, pesada ainda do vôo tombado, foi-se desvendando o corpo fino, tênue no gesto estático de findar... Pétalas de um corpo sutil que denunciou, sem um som sequer diante de tanta vida, a morte. Sua própria morte, agora anunciada!
Tomou o cadáver esguio nas mãos e chorou o ato de eternizar nas páginas de seu pássaro cansado, rajado de versos, sua existencia à beleza fria.
Naquela noite sentiu dificuldade em pegar no sono sufocada pelo aroma das flores dentro dos livros. Pôs-se então a amontoá-los atras da porta do banheiro, aprisionando-os depois de porta fechada. Se viu nos livros confinados, sua vida engastada a um espaço pequeno e quadrado, e sorriu. Quando voltou a se deitar, a madrugada já se anunciava pelo cantos, em silêncios e escuridão, lavando o mundo das cores e dos sons. O sono deitou seus dedos de descanso sobre seu colo, afinado-a à noite. Ela sabia que carregava ao plano abstrato de novo tempo que inauguraria em sono, algo mais que tempo perdido. alguma presença que se instalara e fazia sentir seus efeitos. Silenciou a mente. Os cães ladraram e depois, foi silêncios simultâneos sustentados de algumas horas de quietude maior, e quebrados pela manhã, quebrados por medo de um perdurar maior desse encontro de afinidades, pelos golpes do novo dia, pelo canto do galo, ordem de batalha, que chamava os outros sons, que aceindia na postura as cores de tudo.

  posted by GLAUCUS NOIA @ 16:49


Quarta-feira, Maio 18, 2005  

 
poesia para mim vem como uma fenda para a insanidade...
não espero da poesia mais que mais e mais perguntas , amigo, não respostas ou palavras perfeitas... como disse, minha insanidade aflora nela e é disso que saio sem me ser bem ao certo
meu olhar se fixa norizonde acaba o mar... sou assim tão eu, tão fora de mim me ausentando, só sou parte de mim por que sou parte de tudo que , também , me compõe. Mas antes de me ser sou pedra, folha, folha, pétala e frio... e até, quem sabe, amor, por que não?
na minha vida eu trabalho o longe dentro de mim...
muito... eu preciso dele... como te disse ; é como se o mar refletisse para mim uma verdade absoluta de que é...
talvez... me refiro a mim, e poderia me colocar como mar tb... por que não.../
solitário em grande extensão, e cheio de pessoas às bordas
vai longe longe , mas nunca o bastante para sair de si, do que é e dói se ser... e se fosse gostaria de não ter ido, eu fui e no momento em que estava lá, noutro plano, gostaria de não estar... queria nada saber, nunca ter buscado nada...
almejava ser o mais ignorante dos homens...
chorei... sofri como carne alguma alcançaria sofrer..., e não é apenas poesia. uma dor impossível para a pele. enxerguei em mim e no redor tudo de que faço parte e não queria fazer, me vi humano, e isso me chocou... vi uma essência de lama humana , de erros , de malícia...

sem divisões... sem concressões...sem abstrações... tudo é tudo e de tudo isso, nada transpassa os limites que fazem de ti o que é...


tem a ver com uma visão do mar como uma verdade absoluta..

uma geração desiludida , se sentindo de mãos atadas no país da liberdade ou aqui num pais desesperançado. alguém grita seu nome, grita em seu nome tudo que vc não diz... tudo q vc cala e se faz em silencio em cada quarto onde silencioso ao lado de estranhos procura reencontrar os estilhaços de sua pureza...
durante muito tempo. me ajudou nos meus escritos... mas hj eu tento trabalhar um lado meu que se tornou às escondidas amargo... e agora se mostra.. e ri de mim num espelho tortuoso de cacos...
sim... se vc começa a canalizar para algo... eu canalizo meus rostos em personagens de quadrinhos que crio e desenho desde muito cedo... e ali estampado numa folha branca e sem máscaras eu posso me ver e trabalhar aquilo em mim... mas só de dese4nhar ja deixo muito dele naquela história... outras coisas ficam em outr]os corpos brancos em papel em letras de letras sem conteúdo a não ser pra mim...
mas tem de ser trabalhado e eu sem dúvida acho, como aprendi, que a arte é o melhor caminho... mas a história do kurt cobain mostra que alguns não conseguem se salvar de mergulhar cada vez mais num poço apenas dessa maneira, e se afogam...a

  posted by GLAUCUS NOIA @ 16:42



 
um poço noutro continente distante


um livro nas mãos e nada fora dele, sequer
o torso rubro de você enquadrado na porta
do quarto de vida que somos, apoiada na calha
esquerda de uma cena expressiva tal Valentina estaria.
eu me recolhi ao meu medo de existir
no mundo daquela nova realidade desleal.
escorreguei os olhos nos vãos de palavras iguais da página,
e parei num círculo formado de círculos e meios...
perdi-me de você naquela ausência de narrativa
que meu pensamento construía ao meu redor
de olhos frios, pesados de inanimado pesar..,
dois túneis vermelhos rumando o exterior de um amor
perfeito seco, sob o peso de páginas, em
companhia daquilo que diz diferentes coisas
com as mesmas palavras...

e quem ouve, lê. E se sente, vive.
suas poucas sobrancelhas claras, brincavam
gaivotas, nervosas no seu olhar de gude serenado.
tentando meu perdão cansado de perdoar.
os dedos longos sob a copa da bata vinho..,
unhas nas unhas, ou suas ausências arranhando
um contato agressivo. Os lábios irrequietos
nas mordidas esperançosas por um olhar cordial,
com as correntes oxidadas de letras que tinha nas mãos.
eu perdi meu olhar ao poço escrito e descrito na página,
e deixe-me estar no ar humido daquela palavra
de tijolos cinza perdida num campo alemão,
balancei junto do balde velho em madeira podre,
banguela de algumas ripas, rangi junto da roldana
enferrujada e ouvi o pingar das águas turvas aos
toques de minhas lágrimas...

e você era a sede ou mão que me fizesse sentir,
ser útil, mas algo dentro, fundo, naquela queda
estagnada de água podre e cheiro de fossa, um cheiro
quente, ao mesmo tempo confortável e incômodo...
você era só musgo.., esperando por mim sem ação,
sem mãos ou unhas. E sem mãos eu desci, morri ali,
naqueles não-gestos de um balde sem anjos terríveis,
talvez, longe por demais das torres e cavalos de Duíno.
e naufraguei a podridão caída da corda esfarrapada em
cada gomo, cada casa. E velei junto de mim onde jazo,
nosso amor de toque não ocorrido, lábio de sede,
e água em vida...

13de dezembro, 2003
São Paulo - SP

  posted by GLAUCUS NOIA @ 15:43



 
na casa branca de detalhes prateados..,
um trem parte longe e me leva de alguma forma.
penso nele pelo zumbido das abelhas
que cantam no vazio de um dia nascente.

sou eu a única sombra
dessa casa branca,
desse mundo de sol.

os dedos lascados nas peles
ao redor das unhas sujas de tinta,
(a mão ainda inexpressada, no aguardo do crime
que a alma detém)
os dentes que dóem préviamente corroídos,
precoces, não esperam da morte o desgaste.
duros, não sabem esperar o fim, próximo.
se desfazem...
reagem ao que nega sua pressa...
a antecipação irracional inteligente.

tenho pés que já pisaram trilhos,
(nós recolhíamos os parafusos soltos
nos vãos dos dormentes, no cascalho.)
o moicano torto,
o olhar inédito,
nos pés os calos de litoral,
e os pelos pubianos,
pelos cantos, que
não cansam de crescer.

o corpo que morre, lento,
a pele que cede,
a estrutura arcada diante dos anos.
pensa para a efemeridade,
a carne despenca dos ofícios
de quase ócio pela arte...

a mente trabalha, vive,
porque, instintiva,
nega tanta morte.


casa da amiga Roberta haik

São Paulo - SP
10de abril, 2005

  posted by GLAUCUS NOIA @ 06:48


Domingo, Abril 10, 2005  

 
ápice

alçara a ultima vertigem do prazer;
o desmaio de um só instante,
eterno como o sol, onde se morre
e renasce e nasce...,
através do corpo alheio


falésia da paz, espelho das maravilhas ¿ BA
09de janeiro, 2005



  posted by GLAUCUS NOIA @ 06:33



 
De mares e cidades, litorais e sarjetas

aqui, nas cidades,
as sarjetas
cheias de flores e restos de fumo...

lá, o mar roncava
o som mais antigo da terra,
o mais novo do universo...

e a harmonia mais natural dos últimos séculos
para as conchas vazias
dos ouvidos dele..,

cheios das vozes demais,
das palavras demais,
ditas ao acaso, sem porque,
pela mania de falar...

conchas, a que só restasse,
após cada frase desperdiçada,
o som do mar a se ouvir,

mesmo quando na cidade.
ainda ali, longe do azul
que esbarra e faz areia,

havia mar,
no íntimo de cada concha,
num pedido por mais paz...

ali, nas cidades
as sarjetas
cheias de flores e restos de fumo..,

arrastando pelo vento,
um ruído simples
e passos ecoados na sola,

na rua vazia de abraços...

Falésia da paz, Praia do espelho das maravilhas - BA
09de janeiro, 2005


  posted by GLAUCUS NOIA @ 06:29



 
o olhar rachado


o olhar rachado me reconstrói,
diante de suas feridas eu sou apenas arranhão.
mas sei que tudo que ele é eu sou.


é somente a mim, que o libertei,
aprisionando-o em imagem, que encara dessa forma.

é só para mim que cada rachadura é lágrima eterna, cristalizada.

o olhar rachado me reconstrói,
apenas para me devolver esse incomodo com gosto de ayahuaska.


e sua voz não se move fora dos lábios estáticos sob meus próprios traços.


eu podia, quem sabe, tentar rasgar a folha, jogar ao mar,
para ser comida de águas e sal, como tem sido o mundo através dos meus olhos,
na esperança de que quando suma, estagnada sua existencia,em celulose desfeita e tornada areia, seja eu a parar de existir, a deixar de ser Deus.



14de março, 2005
São paulo - SP
sobre Destraços

  posted by GLAUCUS NOIA @ 17:03


Segunda-feira, Março 14, 2005  

 
Meus destraços; o olhar rachado *


o olhar rachado me reconstrói,
me mói em dores minhas que a ele sei que leguei.

ele me olha, sou só eu que o incito nessa raivamargura latente.
a distorção do mundo rachado o sufoca.

o olhar rachado me reconstrói,
evitando sua quebra total, espatifado na pressão da própria força para sofrer e para continuar

meu caminho para a paz é for(m)(j)ado de seu desespero impotente.

_sabes bem me ferir maldita criatura! te vingas de mim a cada instante.

mas és papel... e és por demais raso para se erguer contra mim...

_POSSO TE MATAR SE QUISER SABIA??? ATUA TINTA É MINHA!!

mas tenho medo... MEDO... o que viraria essa sua aus~encia em lugar de gestos se te liberdasse novamente da forma te desfazendo a não ser pela memória de quem te teve aos olhos e não o sentiu como eu..?

temo porque sinto, e esse é meu saber, que seus destraços, depois de ti, findado, ainda serão meus...


14de março, 2005
São paulo - SP
sobre Destraços
* II parte

  posted by GLAUCUS NOIA @ 17:02



 

hall de entrada

Quando despertou naquela tarde Cecília sentiu frio, o frio das pessoas ao redor, o frio do colchão úmido, o frio do tempo, o frio que vinha de fora e entrava pelas frestas da janela embaçada que, estranhamente, contrastava com outro frio, talvez maior. Era um frio seco e sem tempo e sem espaço para sopros quentes nas mãos esfregadas ou qualquer outro tipo de calor. Era um frio tenso, o frio de dentro; dela, do quarto, dos muros, da cidade, e do quarto maior do lado de fora.
Se levantou nos cotovelos e conferiu seu mundo. Estava sujo ainda, com toda sua personalidade estampada nele. Sentou-se na cama, as pernas dobradas. Calcanhares sob coxas. Esfregando as mãos recitou a sétima elegia de Rilke. Olhos fechados e entre um bocejo e outro.
Depois se virou de lado e acendeu a vela branca e grossa que pesava a mesinha vazia de cabeceira.
_Você está fria!- sussurrou soprando a chama que após se debater um pouco soltou um ruído chiado, imitado por ela por ¿furroul¿.
Ergueu de vez o torso, úmido nas costas. Colocou o pé esquerdo para fora da cama, sentiu o chão frio na sola fina. Era uma sensação boa. Caminhou a passos largos até o banheiro. Tomou seu banho, quente e demorado. Fez sua ¿toillet¿ e o desjejum. Logo estava na biblioteca, rodeada de volumes velhos com cheiro de passado.

Quarto I

Depois da leitura e da escolha de alguns livros pelo cheiro e cor das páginas, desceu até o pátio. Havia chovido na madrugada. Era o que as gotas diziam, escorridas nas janelas suadas de lá de dentro e esparramadas sobre as folhas e flores nos canteiros lá fora. ¿Não é só orvalho!¿
Andou um pouco, e secou algumas flores de São Miguel dentro de ¿A Voz do Mestre¿ de Gibran. Volume pequeno com aroma de ferro nas páginas cru e um que de verde. ¿cheiro verdinho¿ observou baixinho como quem descobre uma traquinagem. Essas flores eram suas favoritas. Não havia uma cor exata, em cada galho assumiam uma tonalidade, e cada uma mais linda que a outra. Em alguns casos eram quase brancas, em outros, de um roxo intens

  posted by GLAUCUS NOIA @ 00:02


Sábado, Fevereiro 26, 2005  

 
, é que bastava-me que caísse uma primeira lagrima, para que meus olhos só enxergassem sal. Um mundo de esculturas brancas, uma multidão de estatuas se desfazendo com o tempo e com o vento desse deserto árido salgado; tudo esbranquiçado, e sem vida; todo sentimento, de ardor..; um existir estéril, esvoaçante, agredindo em grãos pelo vento, dunas secas nas esquinas de olhos; olhos, apenas para contar a passagem dos grãos.
Bastaria uma primeira incerteza para a nau-destino perder-se no azul intenso, e instável no jogar das ondas, no açoite, atirar-me ao desalento das águas profundas a afogar-me em falta de coragem e culpa, e eu seria um mar.
No litoral de uma união que se desfazia, os ventos sopravam nossas palavras, e assim, falávamos cada vez menos. Ouvíamos o bater dos golpes na luta, na caça dentro de cada onda que volvia no balanço para o silencio de concha vazia, e que carregava nos botes de garras e presas que se amontoavam, atacando e devorando, rolando submersos, aos abstratos que pesam vidas, peitos já miúdos de sentimentos enormes, de cansaço.
Na minha mente, mesmo depois daquele silencio final; do dilúvio, ela vinha sempre muito calma e sorrindo, me chamando de seu, de anjo-poeta. Por demais tranqüila e me garantindo alguma paz. Como se dividíssemos um sonho. Mas na realidade cruel da lembrança, nas jaulas irrevogáveis da memória surda, que não ouve o basta, que ignora todo grito, toda voz de ¿CHEGA¿, todo pranto feio, qualquer angustia, motivos e até desejos de um fim, era um pesadelo que dividíamos em partes desiguais. A dor maior, a que todo amor esta suscetível, sempre mal dividida.
Com muita indiferença, construiu-se, ao invés da realização dos sonhos anteriores, um pesadelo a vivenciar. Sobre uma distancia que só aumentou e só fez aumentar até aqui, onde só, muito só à beira mar dessa solidão imensa em azuis, eu a tenho; ainda calma, mesmo que com sorrisos mais difíceis, tomando chimarrão (mais amargo porque eu, por desatenção, deixava ferver à água), lendo Caio Fernando, trabalhando, tomando seus banhos, se vestindo pela manha, rindo ao telefone, e tudo muito alheia, muito ausente ao que eu era, ao que eu estava, por você; longe de casa, deslocado, ficando sem dinheiro sequer para voltar a tras, morrendo um muito de espera a cada dia por uma tentativa menos falha de você que dizia tentar...
Frágil, frágil e vulnerável - sensível demais -, eu cometera o grande crime da condição de ser; entregar a alguém, o que a ninguém se admite sequer, -talvez, sequer às folhas-, por sequer ter por completo, -nenhum controle ou conhecimento pleno-, a bem da verdade. O ato impensado e tolo de se entregar demais, de acreditar acima de todas as coisas, de prometer,-mesmo que a si mesmo-, ser o que não se sabe se é, se seria capaz de ser, ou se possível seria a alguém tal papel. Era o pecado terrível de perder, não, não perder, mas de dar, entregar sua individualidade a algo, a alguém...


trecho do livro de trechos a ser publicado este ano...

  posted by GLAUCUS NOIA @ 17:58


Segunda-feira, Fevereiro 21, 2005  

 
O homem sem passos se movia a trancos sob a chuva forte. forte. forte até para os carros e seus vidros que recebem gotas de forma mais brusca, mais violenta que o corpo.
e a tempestade com efeito, separava as pessoas, os carros as coisas umas das outras...
nas casas nem se comenta... se tornam universos vedados.. como em épocas de guerra, que é sempre, em algum lugar do mundo, os abrigos subterraneos... e o...

homem atravessou a rua... e segui seu mover sem passos, sem gestos, sem consciencia e com muito alcool na idéia vaga de mundo e talvez, preenxida de tristezas e melancolias...

ele chegaria em casa... sem gestos para a porta... sem corpo para o banho, sem face para vergonha, ou olhos para a reprovação dos olhos da mulher...
sem tapa para o medo dos filhos... sem sono para a cama... apenas ausênte!

ele se deitaria, talvez na cama, talvez na sarjeta, e iria esvair a substancia dominante num sono frágil de esquecimentos...

até o retorno da consciencia...

e a manhã pela metade.

  posted by GLAUCUS NOIA @ 13:59


Segunda-feira, Fevereiro 14, 2005  

 
(as nuvens são loucas!)
(as nuvens, essas insanas...)

as nuvens passam, ligeiras em sua lentidão,
passam e não deixam nada!

as nuvens, essas alegrias de textura improvável
e sem tom. elas não ligam para os tique-taques!

elas passam, e é o espaço sua passagem,
qualquer espaço que seja menos do homem e seu erros.
e quando vejo, mesmo na foto morta daquela cena agora irreal de uma
nuvem há muito inexistente que passa sobre o mar, sinto um inchaço no peito...

é que as nuvens, as nuvens, elas passam e não deixam nada em seu rastro
que só há em minha mente de memória possível, pois o que foi morre.

não deixam nada. nada para mim. nem sequer um trecho de sua abstração
em troca dos olhares que morro a elas enquanto me torno passado.

nem a lembrança exata de como era seu branco, seu semblante vasto...

ai, essas nuvens que vão.., e nem me sabem, não me vêm, não percebem
em sua arrogância, típica de quem não fica, não pára, a aflição que sou quando elas vão...
deslizando seus caminhos de céu, esvoaçando suas asas azuis que se estendem a
tudo que elas não são fora das coisas tolas do chão.

são entidades passando de um lado a outro como areias cruzando ampulhetas
que vire um deus de dedos por aí.

as nuvens que passam... sou só passagem para elas que sussurram
aos meus ouvidos os sonhos mais tardis e que são mais dos ventos que nem escrevem,
que me ensurdecem e tocam a face durante o declínio, ao fim da queda, no desespero.

_elas não calçam passos e são bandeiras brancas absolutas e constantes.

são as nuvens, desertas de vida ou de paz. são elas...
são as nuvens que só passam e vão e vão além, sem muitas vezes me deixar..,
sem muitas vezes me deixar sequer gotas, água limpa lavada de céus e vôos.

são tiras de deuses, farrapos de vestes profanas que me rasgam uma outra pele,
que tenho sobre a alma antes da pele imunda, e que me dá, no canto oferendado, uma voz menos densa que a de sons.

_é o choro do início que enxerga onde veio parar e com qual maldade!

é a nata que resta ao fim da fé. é o ciclo eterno no exercício de outro fim, e sou eu. sou eu seco
que resto sob reinos enormes de nuvens sem rastro e sem história, sem memória, sem nada.
sem nada. Nada! sem nada é que elas vão. lisas e leves como vieram, mas sempre diferentes, sopradas! soltas...

_as nuvens passam e não deixam nada, porque nada, é tudo que têm para continuar a cantar chuva nos lençóis claros do mar, girado.

e eu resto escrevendo minha desgraça em virtude de seu passar,
seu passa-tempo efêmero de se mudar, moldar, e ser o mesmo mesmo no devir dos desejos vaidosos dos sol, da caminhança nômade dos ventos.


_vão! vão aves sedentas, vão que são livres, não por seu voar, não pela maciez sonhada de seu mover casual ou pelo conforto volátil com aroma de volta para casa,

sua liberdade é não sofrer, não escrever, não pensar sobre o que fica e sou, tolo.
consciente e pouco insano.

vão... vão e chovam, não deixem que outro arremedo de vida morra tanto quanto eu, por ausência de um simples gesto involuntário teu.

e são sempre poetas que morrem,
e permanecem suas linhas.
nas pautas imortais; os versos,

(quem se utiliza de quem para se expressar?)

as palavras são gotas,
os versos são (de) chuva.
nisso, sou nuvem também...

esse livro é água empoçada que agora escôo
através da tua leitura.

leitura que viaja no tempo para alcançar o que fui sob as mesmas nuvens impossíveis.


Setembro de 2004
São Paulo - SP


  posted by GLAUCUS NOIA @ 13:26


Terça-feira, Novembro 23, 2004  

 
uma paz de vida nossa

minhas mãos servem apenas, para estreitar o poema que desce a mim,
à largura das folhas, das palavras, dos versos e dos olhos que lêem.
do topo à base, sou cheio de pequenas letras que me secam por dentro.
são como de esponjas as palavras. eu as retiro, esponjas pesadas de sugar,
e torço sobre folhas e vidas. se consegues sentir e captar o que digo,
é um sinal brilhante no seu plexo solar, no ventre, de que estás comigo.
um dia ali, bem ali vai brilhar a luz mais forte da maior obra
de um artista da arte sutil de saber viver, um filho. feito da união mais
sincera e traçada de vôos e versos sobre você e eu. nosso Nós maior.

nesse dia, minhas mãos incompletas servirão, mais que aos versos estreitos,
para embalar o sono frágil do fruto do que somos, juntos. e de tudo que sou,
da raiz à copa, florirão letras azuis, formando palavras de união.
numa paz de vida Nossa.

19de setembro, 2004
São Paulo ¿ SP.


  posted by GLAUCUS NOIA @ 19:04


Sábado, Outubro 09, 2004  

 
ela me espera sem tempo nos braços
e eu caminho, lento,

esqueci-me de dizer a ela que encontrei o relógio, escondido,
no meio de minhas roupas, dos papéis. ele, que grita
a velhice das coisas. insatisfeito de dois sons.

esperta, ela se foi -num intervalo breve de Nós- e deixou,
para trás o que denuncia a saudade crescente e sua dor.

o tempo de sua espera é contado aqui, em giros
incessantes nessa perda de tempo diária.

sou eu que ouço sua conta, sou eu! seu grito de saudades!
e me dói que hoje já tarde o tempo de voltar a ser seu.
já devia estar lá, ao frio de seu berço,
ébrio do fulgor dos beijos,
do frescor do hálito.

ela me espera sem tempos nos braços e eu caminho, lento,
obrigado das coisas mais comuns que o amor,
com pobres passos cansados de asfalto,
de São Paulo.
de saudades
de solidão

o tempo se adianta,
se precipita em ser cruel.
a distancia é minha angústia, não tanto a de passos,
mais a de dias que cabem entre Nós que somos um.

_é um incomodo dentro. entre. no ¿i¿,
ao meio da união.

não demora nada meu envelhecer e seu depois inevitável...

passam-se anos numa semana,
só para rasgar meus sentimentos nesse ardor.

a ausência que me trouxe a conhecer a vida,
me leva à derrocada do amor distante fora de Nós.

esse morrer de tempo...

eu evito sofrer e chorar essa impossibilidade estéril de partir,
enredado do tempo carregado nas fotografias e filmagens,
inanimados em geral, a quem não sufoca (desculpe) esse ruir.

e ela me espera sem tempo nos braços, mas o tempo contado é onipresente.
Há seus sons, seu chiado, seus sinos também lá.

só quero que ela saiba, que não estou parado. Não aceno de longe.., estou chegando.
_Fica de olho na estação e em suas flores mais vivas.

¿nosso amor é uma flor seca
dentro de um livro tempo,
à espera de leitura atenta...¿

o ausência é só letras letras.
a saudade é um som fúnebre,
elegia triste tocada nos violinos do tempo
cujas cordas me enforcam. sem paz...


08 e 09 de outubro, 2004
São Paulo - SP


  posted by GLAUCUS NOIA @ 18:45



 
dia de água

Olharam-se naquele instante pequeno de pequenas respirações e pequenos atos de olhos apertados, de saudade antecipada. A água na chaleira sobre o fogo. O movimento oco de cada gesto. Os olhos, duros feito pedras e fundos como oceanos. Precisava partir, nada havia acontecido de fato, mas sabia, somente sabia que era tempo de partir. Não faziam muita coisa, aliás, nada faziam efetivamente. Era só marasmo que se vivia atualmente dentro do dado viciado das quatro paredes, mas é nesse espaço inerte de pouca novidade e muito convívio que a admiração apodrece. O vapor se desenhava bonito no ar macio na sala e o agora era um duelo de olhos fortes, como a ultima frente de batalha que hesita em render-se ou lutar, mas que de qualquer maneira anuncia queda. Quem desviaria primeiro o olhar do tremor daquela cena, quem admitiria a culpa em olhos baixos, a vergonha no enrubescer.., ou simplesmente a dor..? Ficou, fundida em cada corpo de marcas da antiga possessão, apenas a dignidade límpida no gesto de cabeça e na pressão posta nos lábios de pesar.
As lágrimas ganharam. E os olhares continuaram unidos na despedida leve e permanentemente infinda, arrastada pelos dias de tantas alternativas não tomadas e não assumidas, daquele amanhecer sem rotina, sem café.


04de setembro, 2004
São Paulo - SP


  posted by GLAUCUS NOIA @ 04:55


Segunda-feira, Setembro 06, 2004  

 
..há lembranças de um outono
...em cada folha seca
..e casa queda,
....é uma lágrima que se liberta

20de maio, 2004
São Paulo - Sp


  posted by GLAUCUS NOIA @ 17:39


Sexta-feira, Agosto 20, 2004  

 
certezas?
não as quero!
fico com o aval da dúvida
para errar até morrer .. de rir depois...

exibir as cicatrizes!
Mostrar a língua e gritar!

ps- continuemos nos agarrando aos difíceis que a vida nos reserva... e Rilke nos dá respaldo.

10de agosto, 2004
São Paulo - SP


  posted by GLAUCUS NOIA @ 19:28


Quarta-feira, Agosto 11, 2004  

 
Nas margens e fundos de todo existir...,
As águas feito tempo, passam e vestem de verde as pedras.

Cantam um burburinho falsete,
e se tropeçam como se saíssem de um trem
cheio de outras águas que não seguem natureza ou gravidade,
e se espalhem todas para os lados, todos.

Vem pé e fura a lamina de correr.
Pisa bojo verde e escorrega resto adentro.
Tronco, membros e susto submersos.

10.08.04


  posted by GLAUCUS NOIA @ 19:27



 
somos um.
e na arte somos nada.
e todo nada diz tudo em silêncio,

um silencio sábio feito vento e pedra

11de agosto 2004
São Paulo - SP

a pata noturna recua em garras após o golpe
fatal de estilhaçar dias e energias dos seres
suscetíveis aos charmes e pudores da madrugada

27de junho, 2004
São Paulo - SP

nessa caminhança,
nos tarda a semelhança e compreensão;
parece que faz dias que caminho..

05de julho, 2004
São Paulo - SP

as artes não podem ser compreendidas inteiramente.
se assim fosse, faltaria do que a absorve,
seu próprio trabalho de alquimia interior, em se transmutar em si
para compreender seu mar escuro e seu som esvoaçado.
é uma via de duas mãos a apreciação artística, um dar e receber sutil.

Junho, 2004
São Paulo - SP

e assim me sinto um cristo com um passado enorme no braço esquerdo, pronto mesmo a se cumprir num abraço, necessitado de marcar um futuro fundo no braço direito. e finalizar o processo. dispensar a corte. me entregar ao tempo.

26de junho, 2004
São Paulo - SP

é como como é bom não deixar o corpo balançar ao descer escadas,
os degraus de despencar.


é um céu claro desse sol de queda.
que olho da ponte sem ponte de por sobre o rio.


é um otário que se senta ao meu lado e se sente ofendido.

05de agosto, 2004
São Paulo - SP


  posted by GLAUCUS NOIA @ 19:27



 


...desposada do tempo, templo de passos,
....ornada de flores e ignorâncias,
...naturalmente inflada em lágrimas..,
....a história insiste em ser caminho à meia luz
...de lutas e certezas efêmeras, pelo qual,
....noturna, caminha sempre adiante,
...a silenciosidade perpétua dos erros...


28de outubro, 2003
São Paulo - SP


  posted by GLAUCUS NOIA @ 11:26


Sexta-feira, Agosto 06, 2004  

 
..vem comigo na imobilidade suspensa do planar
morrendo ao frio e à liberdade do voar..,
vem, de testemunho de que fui ao céu
uma vez. chora tuas asas junto de nós no carrossel,
somos pássaros negros alimentados da desgraça
longe de sermos só letras sobre folhas de brancura escassa.
somos mais e sempre mais. sobrevivendo sem outra paz
sendo tanto do que se faz. somos nós o teu outro eu,
sabemos sermos todos teus. havemos de nos encontrar um dia
deixando existência vazia. caída frente aos rastros
pouco marcados em passos rasos e nada avançados do passado.
vem, que quero ler em mim o que se esperou, portanto e assim...
vem e apresenta pra mim, a freqüência plena do fim.


03de maio 2003
São Paulo - SP



  posted by GLAUCUS NOIA @ 20:08


Quinta-feira, Julho 29, 2004  

 
O aroma da fumaça que vem do leite quente me faz bem,
me lembra outra vida, que no passado ainda é vivida
numa paz de paraíso de Bahia...


03de maio 2003
São Paulo - SP



  posted by GLAUCUS NOIA @ 20:08



 
Deus;

..........uma mão virando ampulhetas.

..........olhos esperam que caia o ultimo grão,

........e vidas, a queda de ultima lágrima

.......................que afogue um ultimo lamento

.....................................e um ultimo sorriso...


........................................................05de setembro 2003
..........................................................São Paulo - SP.


  posted by GLAUCUS NOIA @ 11:26


Sábado, Julho 03, 2004  

 
É quando as palavras varam o tempo,
Que o tempo se desfaz em seu efeito...

26/03/03

efêmero...


  posted by GLAUCUS NOIA @ 00:05


Sexta-feira, Julho 02, 2004  

 
ás vezes enquanto escrevo
eu me acredito a ponto de entrar no que criei
e de repente estou estático ouvindo o som ensurdecedor do silêncio...
um apitar contínuo... que não para, não aumenta e nem diminui....
e eu adoro estar fora dali mas tão próximo de mim...

19de fevereiro 2003
São Paulo - SP


  posted by GLAUCUS NOIA @ 00:05



 
arte, simplesmente arte!


há sexos que separam e palavras que tentam dizer,

há sexos que unem e o que diga todo tanto em silêncio,

há o inexprimível que habita cada dor e vive a arte alheia a definições


Glaucus Noia
20de março 2003
São Paulo - SP


  posted by GLAUCUS NOIA @ 00:05



 
também as pedras são livres

as pedras repletas de silêncio,
expostas à saudade.
ausentes ao movimento,
alheias ao pensar.

também as pedras são livres
e cada mão, e cada pedra...
as folhas em branco são puras,
as pedras são eternas...

e pesam as sombras e sua fria solidão

Glaucus Noia
13de março 2003
São Paulo - SP


do que expande a solidão e traz à liberdade


num precipício
que deságua;
aos pés e aos olhos
e ao amor e ao viver

todo silêncio fica maior
quando o passado abandona

toda dor dói mais
quando é o passado que fere

cobrar arrependimentos por passados
só traz dor a todos...

toda solidão é mais só
quando é triste o presente

toda escuridão se expande
diante da liberdade

tudo fica mais oco, mais mudo,
mais claro, mais profundo
na ausência da solidão

e só há um dom de liberdade
que se pode ouvir nas asas do amanhecer,
caído dos céus num farfalhar de gotas...


Glaucus Noia
12de março 2003
São Paulo - SP




  posted by GLAUCUS NOIA @ 00:02



 
nesse dia de desemprego
de ameaças de guerra
e de inícios e fins

há uma estagnação que me aflige
e um descanso que me pesa...


Glaucus Noia
24de fevereiro 2003
São Paulo - SP


  posted by GLAUCUS NOIA @ 00:02



 
Estar aqui é como sentir a alma do mundo
É como uma ligação com o divino com o eterno
é estar em contato com os primórdios naturais
com o presente estreito, mutante e incerto
e futuro, no quando do fim das dores do mundo
no fim e início de todo tudo que há e é
é estar em harmonia plena com o tudo, o todo
é ser sem estar e estar e ser sem saber
estar aqui é como estar nú em pé neste lugar sagrado e sublime
como se não houvessem mentiras a serem contadas
e se o eu fosse o símbolo da verdade
como se a verdade se espelhasse aqui refletindo tudo no nada do mar
do ar e nos sons da voz do amor com a brisa a planar
eu sinto como se aqui fosse onde tudo começou


Falézia da paz
Outeiro da brisas BA


  posted by GLAUCUS NOIA @ 00:02



 
A visão que nos divide

há uma janela que pesa à minha frente,
pequena, oca e quadrada com aspirações de ser amor
ela deságua nomes poucos à poesia,
reformando o mundo todo numa forma mais adequada

em que vive o pós-mundo
e respira sua solidão...

Glaucus Noia
Sábado março 15 ou16 2003


pureza liberta;
a poesia da guerra da vida

toma-se nas mãos as folhas em branco
libertando-as do bloco,
das formas, de tal universo hierárquico
de páginas em ordem, sem números...

toma-se pedras nas mãos
para manter-se assim, a pureza no presente,
na realidade
distante de ventos futuros, passados...

pedras pesam sobre as folhas
abrigadas no abraço frio que consola
sua dita ausência de poesia

toma-se no tempo um dia
em que todas pedras pesam outras folhas frias
cada qual toma sua pedra para lutar.

toma-se no vento a liberdade,
uma vez mais, as folhas a se perderem dos olhares
por brancura no voar...
adoecendo pálidas, às brisas, às ondas
para morrerem sobre o leito antigo-puro-par,
abraçadas no frio desfazendo textura, emendando purezas

no fim, senão por palavras;
só as folhas são livres
as pedras ferem inconscientes de si
e palavras, aprisionam, intensas e maleáveis ao (s)tom...


Glaucus Noia
12de março 2003
São Paulo - SP



  posted by GLAUCUS NOIA @ 23:58


Quinta-feira, Julho 01, 2004  

 
desse dia e de outros lugares..


esse dia, a cinza apaga as cores de tudo,
e revela o vazio de cada olhar e seus brilhos,
umidos, sentidos, vão escorrer tudo que não se consegue
gritar...

a luz natural e o chá na xícara que espera harmonia de temperatura
com a língua.., lembra a espera que nos devora em giros de vidro e chiar de areia;

o sangue que seca,
a carne que empalidece,
a pqle que fica flácida,
folhas que caem
no tempo que ao passado desce..,

a vai... e vai...

fumaça branca que dança, faz seu balet fluir frente
à sombra das velas em labaredas de tai-chi...

o que as chamas tanto tentam alcançar ao alto?
em sua expressão corporal de êxtase..,
no lamber ardido de seu toque..,

a aproximação sempre lembrada na paixão e suas metáforas...

Quente!

quente, é o modo do fogo expressar (o) que sofre!

Cai! cai o cinza dos incensos, sobre tudo,
Sobre todos...

E ofusca o cinza do semblante severo que a cidade arrasta nos céus


Junho, 2004
SP SP


  posted by GLAUCUS NOIA @ 20:28


Sexta-feira, Junho 25, 2004  

 
hoje, eu tive a oprtunidade
de ser uma oração.
mas eu deixei o velho, morto, ali,
no chão daquele dia,

sem cova,
sem caixão...

  posted by GLAUCUS NOIA @ 07:53


Domingo, Maio 02, 2004  

 
do que há de eterno e do que há de efêmero...
dos tempos para as coisas e das coisas para o tempo


a assiduidade do que é efêmero em mim
( e sou, fora de mim, humano aqui, Arrabal)
coloca-me, todo tempo que peso em concreções absurdas,
diante do meu fim; que cumpro, o que resto aqui,
uma escultura de cálcio, e um sorriso permanente, que só rio de mim mesmo!
no peito, chia calado, ao invés de pulso, um bojo vazio de vidro fino,
uma metade de tempo que se esvai por mim, mas nunca me pertenceu.

e essa areia casta do mais profundo litoral de mim, consagrado lar,
ruma em rio, torrente, alimenta em eternidade a inassiduidade do inanimado,
a espreitar um olhar claro que perambula no carrossel negro
em meio ao deserto das verdades metamorfas,
modelando-se a seguir os giros orbitais da ampulheta maior que é só respostas...






É por isso que amo as pedras..

17de janeiro, 2004
São Paulo - SP


pequenas mãos sentem a guerra

diante do sentir
vejo-me pedra que desconhece alma,
sinto ser sólido longe das lágrimas
e repleto em poesia.

penso ser calor fluido de sombra
que ignora o tempo mas acompanha o corpo.
bruto é que me sou,
tendo tempo para minha pequena dor
diante do fim que começou...

Glaucus Noia
21de março 2003
SP- São Paulo



  posted by GLAUCUS NOIA @ 11:56


Quinta-feira, Janeiro 22, 2004  

 
do que nem sei se sei ou se sou, ou se assisto


serei assim, sempre tão eu, e sempre fora de mim.
e quando me vier alguém cumprimentar com sorrires nos lábios
e aperto de mãos em ¿prazer emn conhecê-lo¿,
eu direi que não me conhece, e tem prazer em conhecer a fama de mim..
ou imagem.

__Me sou desde sempre tão alheio ao que sou,
vivo tantos dias de lá pra cá tão longe de mim,
que às vezes, (que são muitas), me questiono se
não apenas assisto meu viver encenado, em
pouco corpo magro de gestos falhos que morro.
De longe, de fora de mim, assim tão ausente ao existir,
qual seja a intenção de fé, em coisas.
poucas e tantas num só termo.

Há tanto não sei se sou
tanto não me sei,
quanto não me sou.
não carrego em mim, mesmo, muito saber.
e passo os dias voados e devaneados às artes num geral meta-tudo
sem muito o que dizer, (e sem vontade sequer de discursar ou explicar; só aprendo; nada sei!).
principalmente sobre mim, ou seu eu que sou

só, Eu.

e talvez não..

talvez, apenas platéia...



02de outubro 2003
São Paulo - SP



  posted by GLAUCUS NOIA @ 11:54



 
de uma arte estranha, alheia a mim, que me aponta um olhar, que me observa; compreende.
e não vivo quem sou só por não saber quem é esse, que me é sem mim.


quem dera ser um tanto, ou apenas um pouco
seguro de mim, quanto sou de que não sou o que gostaria de ser.
menos parecido comigo nos gestos que me adornam,
e mais longe, esse sonho que segue nos anos que passo só.
tão ausente aos dois eus que se perdem de mim,
e habitando um outro alguém que tenha aprendido
a apenas apreciar as belezas e sua sedução
sem morrer por ela em tentativas tolas...

Oh, tolos somos, e tanto!

que a arte me compreenda tão somente por pena...


08 de setembro 2003
SP - SP


  posted by GLAUCUS NOIA @ 11:54



 
dueto.
reivindicação de liberdade a duas vozes


é preciso nascer um pouco...
é preciso sair do útero,
dessa sociedade que nos tenta formar de-formando.
sair e olhar o mundo maior,
longe das paredes que te mentem segurança,
olhar o perigo e sorrir diante de seu sorriso,
a cada esquina...


Glaucus Noia e Roberta Haik

08de outubro 2003
São Paulo ¿ SP.


  posted by GLAUCUS NOIA @ 11:53



 
num espelho próximo, deve-se procurar a resposta nos próprios olhos...
num espelho longe, na própria mente...
de tanto refletir luz e tempo me perdi da exatidão dos números..
não há o que fazer... me cativar é um eterno galgar de passos profundos...
refletindo imagens distorcidas de um porvir lento ...
um rosto pálido de mar, tal vítreo seu semblante,
jaz a lua em seu puro leito par..
a imagem impossível num espelho longe, de reflexo profundo que deságua aqui, dentro e tão fora...
reflete também tua face no frio de mim...
um dia cinza sem porvir...

é azul a voz do mar....

longe, tão longe daqui...




  posted by GLAUCUS NOIA @ 11:53



 
outro dia em pequenas megalomanias


é tanta coisa, tanta gente
nessa feira de domingo a domingo.
oferta e compra, oferta e compra
dê o preço, faça a oferta
compre, seja comprado...

a cidade desperta em sons
e me enche o saco!


08de outubro 2003
São Paulo - SP


  posted by GLAUCUS NOIA @ 11:52



 
por que em São Paulo todos são iguais...


vou partir sem pés para o retorno
vou subir o mundo de mundos e viver outra vez
porque em São Paulo todos são iguais

vou restar ali, para comprovar, com existência de ideais,
que me refugiei de sua guerra, assim vencendo-a, para ter paz...

porque em São Paulo todos são iguais...


12de novembro 2003
São Paulo ¿ SP.
almejando voltar a viver




  posted by GLAUCUS NOIA @ 11:52



 
tudo quanto existe é passageiro para mim..., a não ser pelas coisas simples que me agradam o viver. E hoje o aparelho de som, além de não cumprir com seu dever, que seria dar canto a minha musa, a aprisionou, feriu-me a mão no espancamento por abrir-lhe o compartimento e feriu, seu, o canto de encantos em riscos...
choramos por dentro hoje, a Beth e eu...tão ¿Fora de estação¿...


13de janeiro 2004
São Paulo - SP


  posted by GLAUCUS NOIA @ 11:51



 
De um perdurar de erros hereditários no tempo



Era um homem velho e sua morte
de tristezas farta, só dele.

era um mundo colorido e suas grandezas
de fraquezas e perigos , só lá fora.
e mais além havia a voz,
que me furtava vida toda tarde...

__...e sei que tanta mágoa e lástimas dela derramadas,
não eram desmotivadas, mas de tocar-me o corpo e sentir a pele solta...

Um homem velho recitava um poema de um homem velho que dizia haver um homem velho, contando uma história a uma criança; na história, um homem, velho, aturdido nos gestos, debruçava seu torço de rugas sobre uma velha e gasta carteira escolar, onde, de além dessa fronteira rasa, olhos transbordavam vida;

o velho erguia as palmas num ritual trêmulo,
tocava aos olhos com os dedos médios.
os dedos rapidamente adquiriam um tom gris, vítreo na superfície.
tão logo baixasse a mão, tocava os olhos de vida dor vir da criança,
que chorava grãos na face cinza...

era uma criança e sua vida ainda não sabida
de descobertas farta, mundo a criar...

Era um mundo desigual, um reino de pedras,
faíscas de dentes e exércitos de si, no que se é, se agredindo, aqui dentro.


06de novembro 2003
São Paulo - SP



  posted by GLAUCUS NOIA @ 11:50



 
da assídua perda certa


manter-se desde o sempre ao hoje, o dom absoluto;
ser alheio à degradação que nos aguarda nos caminhos pelo tempo.
ver passarem os momentos, absorvendo deles, bem sentidos,
cada aprendizado sofrido ou amado, (ou os dois, posto que não se anulam
e no contrário de opostos, se completam),
sem a aflição de estar diante do temido envelhecer,
(num geral, alheio a noções de, neste ser eterno, ou corpo efêmero de existir),
a que estamos fadados, todos,
quando não aos dezesseis, logo ali, encontrados de uma plenitude de fim,
nossa, por aí, entre rios e velocidades de vento...

mudos, planos se vão e nos levam um hálito ultimo,
para perdê-lo sem se dar conta,
sem dar valor...

ventos seguem soprando,
esvoaçando cabeleiras,
despertando uns risos
e calando outros sob madeira e terra lacrimada.



14de outubro 2003
Nova Esperança / Maringá


  posted by GLAUCUS NOIA @ 11:49



 
Os pelinhos nas pernas de crescer


O dia festejava alegremente algo que não se via claro em meio ao trânsito, ao barulho ecoado de todas bocas, e de todos outros gestos e lados e motores, em meio ao caótico Sábado paulistano. O sol radiante brilhava ao alto e daqui de baixo seu calor lhe sorria de volta a 31 graus Celcius.
Era dos ouvidos regados a Marisa Monte que vinha o refresco e a calma para lidar com a irritação do calor. De sua voz soprada às letras de cartola, Nando, Arnaldo entre outros coletados na fita cassete.
No banco traseiro, uma camisa xadrez pesava o encosto de couro recobrindo o corpo jovem de artes, em suas pernas de calças, lamentavelmente pretas tal qual o couro grosso do coturno, repousava a cabeleira loura no topo de seus quatro anos. De repente o canto de cantos soou mudo, era quebrado pelo chamado manhoso e arrastado do menino pelo tio de colo aparentemente confortável:
__ Titiiio...
__ Oi, lindo.
__ Eu não quero crescer... ¿BUM! o mundo se fechava em portas de incompreensível mudez, e o calor cedeu trégua merecida, dando lugar à ternura de palavras cheias de vazio peculiar de marcas e medos, como os inícios, sós, podem ser. O poeta conhecia a poesia nos primeiros olhos de ouvir e ver a vida manifestada.
__ É meu amor? E por que não?- um arrepio varria o pescoço e o couro cabeludo.
__ Eu não gosto de pelinhos na perna... ¿ o menino tinha os lábios trêmulos e os olhos pregados ao brinquedo usado, comprado a pouco na feira de artes da praça Benedito Calisto. O tio o fitava, planando seus olhos azuis e temerosos em mar, feito nuvem calma os olhinhos foragidos ao brinquedo, talvez por admitir aquilo que poderia ser o mais antigo de seus receios; crescer. O arrepio lhe escorreu aos lábios num sorriso doce e divertido.
__É?
__ Não quero...
__E por que não, amorzinho?
__Porque não!
__Mas sabe de uma coisa? ¿ a pausa breve chamou os olhos a se encontrarem- Depois de um tempo, quando você está crescendo, você nem dá a mínima, nem percebe mais... ¿ não sabia muito o que dizer... e diante da não reação, continuou... ¿ eles vão crescendo aí de vagarinho,- girou um dedo em caracóis na perna lisa ¿ junto com você e você nem repara...
__Mas eu não quero ficar grande.
__Eu sei, lindo, é tão bom ser criança, né? ¿ Se lembrava da sua infância, feliz e descompromissada até os seis anos, e depois melancólica e infeliz; havia o acidente com a o dedinho perdido da mão direita, ao ingressar no pré-primário, rendendo seis cirurgias, trinta e seis pontos, vinte e poucos pinos e algum sofrimento. O desentendimento constante dos pais, mais em clima e desarmonia sentida e descontada nos berros inesperados do pai que em imagens é verdade. Sabia ter sido o mais protegido disto tudo, até por ser o caçula. O acompanhar o pai nos bares depois da feira no fim de semana, era o que mais se aproximava da alegria, naquele tempo, ainda almejada e confundida com felicidade,( um engano comum). prosseguiu ¿ Depois de um tempo não é mais tão ruim assim, você vai se acostumando, tem outras coisas para fazer, e mesmo que você sinta um pouco de medo, ele vai sumindo, vai ficando menor, bem pequenininho com o tempo... -- ele queria mesmo, era apoiar a rebeldia daquela alma enorme do corpanzil encolhido a sua frente, e dizer que realmente é horrível crescer; que todos são mais chatos e solitários e tristes sim, por que não ? não seria um erro generalizar assim. Tampouco exagero. E que se auto-impõe responsabilidades mil e prisões trançadas e quase fundidas, uma mais desinteressante e nula que as outras... Mas não o fez. Havia ali, no seu colo, nos seus olhos, em alma e coração, um universo temendo o existir, um ovo necessitado de calor, asas carentes de incentivo desde já, para voar seus trinares nos ventos frios do amanhã.
__ Mas eu não quero ser grande.-- Havia um temor de decisão na face aberta de olhos escondidos à paisagem.
__Mas você já é grande, aqui ó, muito grande,-- tocou-lhe, com o dedo indicador, de leve a testa. Os olhos se encontraram.¿você já é muito grande aqui dentro. Você é um menino legal, gosta de coisas legais, e seu crescimento, -- seu olhar parecia se fundir às palavras proferidas ao alto.- seu corpo é só um reflexo disso que você vai se construindo, ele só acompanha o que você já é e se descobre aos poucos...
O menino o fitava em grandes incógnitas azuis de olhos. E como o tio se sentisse tolo, (o mais hipócrita dos tolos), a resposta lhe soou satisfatória.
Virou o rosto encerrando a conversa num sorriso repleto de sua satisfação infantil.
O som voltou, e mais poética e intensa do que nunca ecoou o sentimento cantado, os barulhos, o sol voltou a brilhar, mais melancólico, e seu calor, agora, era um abraço, um colo amigo para os olhos mareados do jovem. E termino esta cena como só poderia;

Um carinho de fios às pontas dos dedos
E um orvalho fino regando o olhar
Uma ampulheta crua pesa o tempo dos medos
Numa balança continua, alimentada de erros.
Assim o tempo vem, não mais que isso se vai.
Há a herança de duas histórias.
Uma a se ler e guardar de aprendizado.
E outra a escrever, nem só de erros,
Muito menos só de acertos,
Mas de tentativas válidas, umas mais outras menos.
Temos apenas tempo, para criar nosso espaço.



Por Glaucus Noia

Sábado 20de setembro 2003
São Paulo ¿ SP .

Agradecimento especialíssimo ao sobrinho, amigo e colega na sensibilidade e sentimento das artes, Massimo.


  posted by GLAUCUS NOIA @ 15:23


Terça-feira, Janeiro 06, 2004  

 
Sobre a cidade, a consciência e o tempo;
memórias de um mestre...


O rapaz pesou, sem gestos, sua mente sobre a cidade e observou, de cima, da cidade e dele, seu movimento que esmorecia suave e lento, prostrada à noite confessando outro dia de prostituição política-socio-cultural. A noite dormiu seus cabelos azuis por cada alameda daquele caos urbano, fosse de prédios, árvores, ou barracos. tudo muito cinza. E a metrópole ia brilhando cada vez mais fraco, inalando o cheiro de fim, respirando fundo, quase inconsciente de si, ia se esquecendo da megalomania que a sustentava, das coberturas e lençóis de seda, aos bueiros, calçadas e jornais e frio, jornais que contaram ontem, mentiras de outro passado mais passado. Tudo muito cinza.
Tão logo a cidade estava liberta da consciência que então ainda o tinha sob rédeas. Foi quando ouviu o badalar mudo